quarta-feira, 22 de abril de 2009

Cotidianos

Desde criança escrevia muito - foram cadernos e mais cadernos de memórias. Lia muito - devorava os livros e só parava na última página. Aprendeu algumas línguas e fez faculdade de jornalismo, mesmo quando todos lhe diziam que seria mais uma jornalista desempregada. Começou como estagiária em uma editora e hoje, aos 35 anos, tem a sua própria editora, onde além de empresária, é produtora editorial. Continua escrevendo e divide os seus dias entre administração e leitura. Lê manuscritos de autores desconhecidos, lê obras que publicará e cujo projeto gráfico executará. Continua escrevendo anonimamente, como fazia desde os seus oito anos de idade. Escreve nas suas crises de insônia. São crônicas, memórias, sentimentos, desabafos.

Sua vida é uma rotina. Acorda no seu apartamento carinhosamente decorado por ela própria, algumas vezes com o namorado, uma relação antiga, estacionada. Seria o famigerado "comodismo"? Toma o seu café, faz a sua caminhada, banho, táxi e escritório. Reuniões, contador, impostos, consulta ao saldo bancário, secretária, telefone, almoço com cliente, horário de leitura e criação.

Hoje é dia da faxineira - as compras que ela fez pela internet serão entregues em casa. Na volta do trabalho ela entra em um cinema para fugir do trânsito. Chegando em casa, acende a luz, liga o som, esquenta o jantar e come sozinha. Liga para o namorado antes de dormir. É um hábito agora já antigo, e o faz mecanicamente, da mesma forma que escova os dentes antes de deitar. Como não poderia deixar de fazer, pega um livro para a última leitura do dia. Apaga a luz e dorme.

Era dia claro, cheiro de manhã, a última névoa da noite começava a desaparecer. Ela abre a porta, seus cães estão ávidos por um 'bom dia', calça as botinas por cima do jeans desbotado e sai para as cocheiras. Ela sente o cheiro do estábulo, os cavalos relincham. Ela pega o seu preferido e o prepara cuidadosamente para uma cavalgada. Sai galopando pela estrada de terra cercada por magnólias. Vai galopando sem parar, sem reparar que já não havia mais magnólias e que a estrada tornava-se mais larga. A terra batida deu lugar ao asfalto e agora ela galopava por entre os carros. Foi aí que ela se deu conta que tinha chegado ao escritório.

Acordou decepcionada. Pensou na rotina que seria o dia de hoje, exatamente igual ao de ontem e certamente igual ao de amanhã. Passou os cinco minutos iniciais do seu dia pensando em como seria bom se hoje ela pudesse pegar um carro, sair por uma estrada de terra, longe do trânsito, no meio do nada, indo pra lugar nenhum. Só ela e as idéias dela. Como seria bom sair pelo mundo afora desbravando e fugindo do seu cotidiano.Escutando o seu silêncio.

2 comentários:

Anônima por enquanto... disse...

A-do-rei "Paulas"!

Unknown disse...

Tô cafusa, é sonho, é imaginação???