sábado, 5 de abril de 2008

Querido diário,

Hoje foi um dia maneiro. Um projeto realizado com sucesso - o primeiro enduro do Urucum. Um desses dias que recompensam todo o trabalho. Sucesso e reconhecimento. Fiquei feliz mesmo, mas muito cansada. Acabei vindo pra casa e, mais uma vez, solidão. Sei que estou caminhando para fora, aos poucos. Mas faço a seguinte reflexão:

Trabalho pra casseta, e hoje vi resultados. Foi o resultado de empenho, dedicação, transposição de obstáculos. Por que não posso ter a mesma atitude em relação à vida pessoal? Me empenhar, me dedicar, transpor obstáculos?

Queria chegar em casa e ter um recado carinhoso à minha espera. Seria o bastante para me fazer feliz, confortada.

A Babá está internada, morrendo. Muito velhinha e muito doente. Cuidou muito de mim, a minha vida quase toda. Quando a minha mãe não tava, às vezes deixava de ir ao colégio porque ela ficava com pena de me acordar. Fazia o melhor feijão. Tenho muito carinho por ela, mas infelizmente não tinha mais muito contato. Ela foi morar com a família dela. Estava há muito tempo planejando uma visita com a minha irmã, mas éramos sempre "muito ocupadas". Hoje me arrependo muito de não ter ido visitá-la quando ela ainda estava bem, e quando teria ficado tão feliz por nos ver. Como são tristes essas partidas. Quero muito que ela não sofra muito tempo. Temos que lembrar que a vida passa, sempre.

Hoje virou diário.

terça-feira, 1 de abril de 2008

O Um e o Outro

E então ela decidiu de uma vez por todas acabar com essa história do Um e do Outro também. Afinal de contas, ambas histórias já duravam mais de um ano (um e meio do Um e um ano do Outro). O Outro completava o Um, e na mais crua verdade, ela não tinha nenhum dos dois. O Um era o oposto do Outro em tudo, mas ainda assim, ela continuava sem nenhum. Para o Um, ela verbalizou a despedida. Já com o Outro, ela não teve coragem. Não por ele, mas sim por ela. Se perguntava pra quê destituir o Outro do cargo de "massageador do ego". Se respondia que não massageava coisa alguma, nem por perto ele andava. O contato era virtual e esporádico. A grande falta mesmo que ela sentia, era do Um. Sentia o gosto dele, o cheiro dele, ouvia a voz dele, e o via em cada moto, cada carro igual ao dele. Várias ilusões durante o dia, mas o coração sempre disparava. Será que algum dia vai acontecer de novo? Ela sabia que o Um até podia pensar nela de vez em quando, mas ele resolvia esse assunto rapidamente passando ao próximo nome gravado no celular. Quem sabe não era com a mesma inicial? Era o Um que ela queria que a quisesse. Era o Um que encaixava quase perfeitamente nos sonhos dela. Bastava o Um para o mundo ficar completo. Mas era o Um dos sonhos dela, e não o da realidade. Ela queria o mesmo lugar na vida do Um, e foi aí que ela viu que o Um não seria exatamente a peça que faltava na vida dela. E era aí que ela apelava para o Outro, que fornecia o que faltava no Um, e aí ela não precisava de mais ninguém. Mas e quando faltavam os dois?

Ela finalmente conseguiu ficar uma semana sem o Outro também. Solidão mais profunda. A essa altura, o Outro também a deixou por uma semana. Quando, um dia, se manifestou. "É engraçado o que a vida faz da nossa vida - ela afasta, ela tira...". Ela então falou para o Outro o que queria ter dito para o Um. O sol voltou a brilhar. Mas uma nuvem o cobre em pouco tempo. O Um deu uma resteira na auto-estima dela, e o outro não foi capaz de ajudar, apesar de ter se esforçado. Ela não sabe por que não consegue. Mas ela sabe que a vida está do lado de lá da porta. Bastaria colocar a mão na maçaneta e girar. O mundo está lá, mas não espera por ninguém. Ela pode dar um pulo e fazer parte dele. Mas ela não consegue. Continua paralisada. E fala com o Outro, como se ele fosse resolver os problemas dela. Ela sabe que ele não vai, e nem ela gostaria que fosse ele a preencher essa vaga.

Ela vai dormir pensando: por que? Por que?