Oi, minha filha. Que saudade, fui hoje à tarde na sua casa para ver se te encontrava. Que bom que você veio me ver. Decidi fazer o almoço para as amigas da sua mãe. Vou fazer camarões fritos com molho rosé na entrada. Depois disso, uma salada com alface americana, tomates e alho poró. Um frango com abacaxi e molho de abóbora, que batizei de "frango à moda tailandesa", filet mignon e batatas coradas, e arroz com amêndoas. Como foi mesmo que você fez daquela vez? Ah, sim, basta ferver as amêndoas para tirar a casca, e em seguida refogá-las. Estava uma delícia. De sobremesa, pudim de leite e salada de frutas. Mandei pegar os pratinhos com aspargos desenhados, para servir aspargos também. Mamãe sempre servia aspargos assim. Tudo simples e chique. Ah sim, claro, vai ser muito chique. Mas sem muita frescura. Nos tempos de hoje, tudo é muito mais descontraído, e muito melhor. Antigamente, na casa de vovó no Alto da Boa Vista, as refeições eram todas servidas por mordomos portugueses. Todos homens. Ela dizia que as mulheres não serviam bem. O Nogueira trabalhou muitos anos como mordomo na casa de vovó, praticamente a vida toda. Morreu bem velho. Naquele tempo vinha muita gente de portugal para trabalhar no Brasil. Os empregados domésticos eram todos portugueses.Os jantares eram servidos à mesa. Alimentos pela esquerda, bebidas pela direita. Uma chateação. Hoje é tudo muito mais prático, muito mais simples. Você soube das suas primas? Fico tão triste que não se entendam bem. Ah, minha filha, não tenho 91 anos à toa. O que falta muito ao ser humano é serenidade. Serenidade para encarar as situações, serenidade para tomar decisões. Mas isso não tem jeito, só aprendemos com a vida, com o tempo. Tomara mesmo, que se entendam logo. Gosto de ver tudo resolvido. Mas enfim, você acha que consegue vir ao almoço na quinta? Vai ser tão bom! Sim, claro, venha apenas se você conseguir. Esse corre-corre de todo dia... Hoje o pilates foi bem puxado, ela deu uns exercícios novos, foi difícil. Ok, minha filha, vá descansar. Um beijo, querida, boa noite, até amanhã.
Maria Augusta, 91 anos.
Maria Augusta, 91 anos.
